sexta-feira, agosto 04, 2017

Dona Laura (que música assustadoramente verdadeira!)

Olha a Laurinha lá vai toda decidida
Diz que é crescida e que prescinde dos conselhos do pai
Olha ela, lá vai toda destemida
Dona da vida nem duvida que é por ali que vai
Olha a Laurinha à cabeça da charanga
Das raparigas do recreio do liceu onde ela anda
E manda na dinâmica da escola
Não vai à bola com a setôra de História
E não disfarça e faz a vida negra à criatura
É a ditadura de quem manda só porque sim

Olha a Laurinha que já fuma às escondidas do pai
Com a mesada de alguém
Ainda namora às escondidas da mãe
Enquanto diz que não tem medo
De nada nem ninguém

Vai, dança até ser dia
Que a vida são dois dias
E tu vais ser alguém
Igual à tua mãe
Um olho na novela
E o outro na panela
Um dia vais ser tão Dona Laura como ela

Olha a Laurinha toda cheia de cidade
Sem ter idade para sequer votar na junta daqui
Sempre que a chamam ao quadro desatina e nada diz
Mas bem que opina sobre o estado a que chegou o país
Olha a Laurinha lá vai cheia de prestígio
Nenhum vestígio da miúda outrora santa e singela
E a mãe dela fica a vê-la da janela
Ainda se lembra bem do tempo em que a Laurinha era ela

A fumar às escondidas do pai com o dinheiro que alguém
Subtraiu da carteira da mãe
Enquanto diz ao mundo que ainda há-de vê-la ser alguém

Vai, canta até ser dia
Que a vida são dois dias
E tu vais ser alguém
Que é tal e qual a mãe
Um olho na novela
O outro na panela
Um dia vais ser tão Dona Laura como ela

Aproveita agora
Que há-de chegar a hora
Que não poupa ninguém
Vais ser igual à tua mãe
A filha pela trela
Repete-se a novela
Um dia vais ser tão Dona Laura como ela

terça-feira, outubro 25, 2016

vazio preenchido ou uma plenitude vazia

Sinto-me vazia... esgotada... na correria do dia a dia, sem tempo, sem vontade de ir mais fundo... já fui uma pessoa "profunda", espiritual, uma pessoa capaz de absorver o tanto que a rodeava... que ficava horas a escrever, a rezar, a pensar sobre acontecimentos, circunstâncias... que de uma vivência tirava mil conclusões e vibrava com os "pequenos nadas" do dia a dia... tirava deles as maiores lições de vida... e da partilha com amigos a construção dessa crença de que a vida é sempre mais e de que estava a construir algo...
o "a quem muito é dado muito será exigido" bloqueou-me... deixou-me sem chão quando dei por mim a vacilar... a não conseguir dar mais... Ser mais para os outros, para o mundo, para mim...

Onde está essa pessoa? Agora não tem tempo nem energia... agora o tempo e a energia vão para este dia a dia de birras e gargalhadas, ciúmes e cumplicidades, brincadeiras de faz de conta, gritos de guerra e muitas dúvidas de estarei a fazer o meu melhor?... podia fazer mais?... o cansaço leva o melhor de mim?...

Tudo o que vivi até hoje, todos os livros que li, música que ouvi, concertos que fui, tudo o que viajei, namorei, partilhei... tudo me construiu... tudo me ajuda hoje a ser quem sou... mesmo que com pouca força... sei que está tudo lá à espera novamente para brotar, para Ser...

Elas merecem o melhor de mim... ser mãe e esposa não pode significar anular-me, deixar de existir... pelo contrário... se o fizer que espécie de mãe e de esposa serei eu... mas assusta-me esta minha necessidade de abstração... de precisar deste vazio, de ter um momento sem esforço e sem "função", aquele momento de atirar tudo para o ar e nem ler, nem estudar, nem correr, nem organizar, nada... o nada é a minha fuga...
preciso de me encontrar comigo... com aquela Joana deste blog... com a Joana que busca respostas, que procura todos os dias ser melhor...
mas e o tempo, e as horas, os minutos e os segundos... onde estão? onde posso ir buscá-los?
Depois de 7 anos em urgência mal de mim se não souber quais as prioridades...
O que é que será exigido agora?

Tenho medo de me perder e nunca mais me encontrar... preciso dos outros... daqueles que estão na minha vida desde sempre, aqueles que puxam por esta Joana... saberão eles relembrar-me, encontrar-me algures lá dentro perdida...

Que estranha é esta sensação de nunca ter imaginado que a vida me traria até aqui... numa felicidade imensa de saber aquilo que quero, de ser uma pessoa transparente, verdadeira, espontânea, resiliente e de bem com a vida... de ter a meu lado a pessoa que mais adoro e ter 2 princesas absolutamente maravilhosas... mas a ambivalência, a insatisfação não me poderá deixar nunca! Nem que seja na forma de saber que a vida tem, é mais... A vida precisa de mais respostas que a passividade da minha tentativa de "dar o melhor para as minhas filhas!"

Continua a existir a Síria, os emigrantes, os refugiados, os pobres, os que sofrem de injustiças e o mundo gira cheio de desigualdades, poluição... Tem de haver mais que eu possa fazer...
sinto-me pouco no muito que me sinto...

quinta-feira, agosto 26, 2010

ser emigrante

É nunca estar bem onde se está, é querer estar em dois lugares ao mesmo tempo, é estar bem em dois sítios completamente diferentes…

É não conseguir encontrar palavras para expressar aquilo que se quer dizer, ficar lost in translation… é ter saudades, muitas saudades! De tudo, da vida que sempre tiveste até ao dia que partiste, a família, os amigos, a tua rua, o café, a comida, o sol, o mar, a tua cidade, o tudo ser familiar, o tudo ser fácil, o saber sempre o que fazer, onde ir, com quem estar, o conforto do que conheces… trocar tudo isso por um sentimento de não pertença, de não saber bem onde estou, como lá fui parar e o que fazer… achar as pessoas estranhas, tudo diferente, criticar, ser criticada, ser vista como um ET…

É ser gozada por não saber o significado do que estão a falar, é estar em constante esforço e concentração para apanhar as conversas, para criar amizades, para criar pertença… é ser incompreendido, é não compreender… é sobreviver num mundo que não é o teu, e aos poucos aprender a viver…

É encontrar pessoas fantásticas com quem partilhar tudo isto, é sentir uma união e cumplicidade com essas pessoas que é difícil encontrar noutras situações…

Mas é também a aventura, de descobrir que o mundo não é tão simples como me foi dado a conhecer, que é enorme e vivê-lo é tão diferente de sabê-lo! É conhecer pessoas de diferentes culturas, é ser constantemente surpreendido e de certa forma sentir-me outra vez como uma criança a viver novidades, descobertas… é perceber que sou capaz de mais do que alguma vez imaginei, descobrir potencial onde sempre achei que havia fraqueza e olhar para trás e ver um percurso percorrido… com dificuldade mas com conquistas incríveis! É saber que não seria quem sou hoje se não tivesse emigrado…

É ganhar um amor enorme às origens, à minha terra, à minha gente, é chorar de emoção na praça D. Pedro IV e tirar fotografias a Lisboa, é perceber a quantidade de coisas espectaculares que Portugal tem, a nossa cultura, a nossa postura… é finalmente entender o Fado e deixar-me encantar por esta música… perceber a sua melancolia e paixão…

É sentir uma ligação especial com qualquer português que encontro por cá e perceber a importância da língua…

É perder pedaços essenciais da vida dos meus amigos e família… é perder casamentos, amigas grávidas, bebés a nascer e crescer… festas, o cafezinho, os dias menos bons, o pouco tempo que as minhas avós têm/teve… é não estar lá… é o vazio da ausência na vida das pessoas mais importantes da minha vida… é sentir que nada no mundo vale mais que isso…

É desenvolver um enorme sentido crítico, comparar vivências, conseguir ver onde se poderia fazer diferente… mas é também desenvolver uma imensa capacidade de adaptação, “primeiro estranha-se e depois entranha-se” e uma enorme capacidade de engolir sapos, e de pensar “eu não sou de cá, vim só ver a bola…” é questionares se ainda és mesmo tu que estás ali…

É andar de bicicleta para todo o lado, é aprender a dar imenso valor a um dia de sol… é ir a festas em barcos, festivais de música com lama, ter montes de férias, ter um parque em cada esquina… é saber que a felicidade não depende de onde estás mas sim do que vives… é saber que quem amas e quem te ama estará sempre lá, mesmo que percas momentos importantes…

Para o bem e para o mal nunca o viveria se não fosse o André e nunca o teria sobrevivido sem ele, e não há outro lugar no mundo onde eu queira estar mais do que estar ao lado dele, a viver estas e outras aventuras, sempre J

terça-feira, fevereiro 24, 2009

12 anos...

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir

Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes fogo e mar, loucura e chão
Ás vezes só a cinza do que sobrou

Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu sei te dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer


Imortais, Mafalda Veiga

quinta-feira, setembro 25, 2008















flutuar...
simplesmente das melhores sensações do mundo...

domingo, janeiro 13, 2008

eu não sou de cá, só vim ver a bola...

emigração... estar longe de quem se ama, desenquadrado no espaço, no tempo, nos hábitos e na cultura... ter a sensação de que não sou de cá... sentir-me perdida... bastante perdida... a língua, a língua é uma barreira tão grande!
suponho, tal como suponho em todas as outras experiências na vida que seja daquelas coisas que só quem o vive é que sabe o que é realmente... querer transmitir algo e não conseguir... engasgar-me e ficarem todos em suspense à espera que o diga...
como me posso envolver com pessoas que fogem disso mesmo... de se envolverem, de se darem... como posso não me envolver quando isso é o meu forte... é aquilo que mais amo fazer, é aquilo que me faz sentir viva...
hoje sonhei que falava com as minhas amigas portuguesas como se fossem inglesas... e realmente a minha postura e a forma como as encarava era completamente diferente... foi um sonho estranho... falava com elas a medo... com muita formalidade... e depois quando descobria que eram portuguesas sentia-me envergonhada de ter falado com elas com tanta distância e formalidade... será algum aviso???
é curioso como tudo aquilo que me cativava da primeira vez que fui emigrante mudou... mudou em mim, claro! como é possivel que o mundo se transforme tanto quando aquilo que se transforma somos nós próprios!!! a forma como encaramos os outros e as experiências que temos pela frente!!!! sinto-me uma amálgama de experiências que quer constantemente crescer e amadurecer... como coisas que seriam insuportáveis para mim há 2 anos, nas quais nem podia pensar são exactamente aquilo que desejo para mim neste momento!!!

sempre acreditei que as pessoas podem mudar, podem melhorar... nunca imaginei que fosse tão grande a revolução... e se para mim já me aflige olhar-me ao espelho e ver as diferenças, a Joana que já conheci e a Joana de hoje imagino as minhas avozinhas, com 83 anos... décadas e décadas de vida e experiências, relações, emoções, conquistas e derrotas, aprendizagens, sofrimentos... eu ainda estou na minha terceira década e vida... e suponho que se há 10 anos me dissessem o rumo que a minha vida tomaria eu ia-me rir e não ia acreditar!

acho fantástico o sentimento de me surpreender a mim mesma :-) e acredito realmente que a vida é assim mesmo... transformação... deixar-me tocar por Deus em cada momento...

sábado, janeiro 12, 2008

originalidade...

ir à procura do meu próprio blog no google foi uma experiência deprimente... quanto ao "pintar o céu em tons de azul para ser original" enfim... digamos que encontrei uns 5 blogs com o mesmo nome que o meu e uns 5 que postaram a música... pois, para além do facto de nada disto ser original sendo que os Radio Macau inventaram a música primeiro :-p

A originalidade deve estar na almágama de desoriginalidades que cada um de nós é... imagino a quantidade de pessoas que sente exactamente o mesmo que eu sinto quando ouve esta música... que vibra como eu vibro... que passou por fases diferentes, desde o querer fugir, ao querer morder o anzol... já nada disto me assusta... não me vou esforçar para ser original... deixar de ser eu própria... quanto mais me cultivar, me procurar a mim com certeza que, pelo menos para mim serei original... se é que isto faz algum sentido sempre foi nos outros que encontrei a minha originalidade... a escutar músicas com letras que me marcaram, biografias de grandes homens e mulheres, histórias de vida intensas... tudo pequenas estrelas que de alguma maneira fizeram brilhar o meu interior... algo em mim sentiu-se cativado e procurou desenvolver esse sentimento... nessa minha sensibilidade especifica àquilo que já existe reside a minha originalidade...